Quem vê as pingas que o herdeiro toma, não vê os tombos que ele leva…

[:pt]Edwin Arlington Robinson (1869–1935) é considerado um dos mais profícuos poetas norte-americanos do século XX. Terceiro filho de um rico comerciante da Nova Inglaterra, Robinson parecia ter sua carreira direcionada para os negócios do pai, mas preferiu empreender nas artes, explorando, em seus poemas, temas com os quais tinha bastante intimidade, tais como frustração pessoal, materialismo e a inevitabilidade da mudança[1].

Um de seus poemas mais conhecidos, “Richard Cory”[2], foi publicado em 1897 como parte da coleção The Children of The Night, mas somente em 1904 sua obra alcançou abrangência nacional com o apoio do filho do Presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, a quem Robinson dedicou, como agradecimento, em 1910, a coleção de poemas The Town down the River, inclusive submetendo-lhe à apreciação previamente à publicação.

Inobstante o sucesso de Robinson no mundo das artes, o poema “Richard Cory” se tornou mundialmente conhecido como música composta por Paul Simon em 1965, gravada por Simon and Garfunkel para seu segundo álbum de estúdio, Sounds of Silence, e posteriormente, em 1976, pela banda Wings, liderada pelo ex-baixista dos Beatles Paul McCartney e sua esposa Linda, para o álbum ao vivo Wings Over America.

Em sua releitura do poema de Robinson[3], onde a melodia e a harmonia dos vocais com Art Garfunkel são igualmente geniais, Simon não somente amplia, como contextualiza a narrativa envolvendo o tal Richard Cory, que além de único herdeiro de um afortunado banqueiro – e, por tal, dono de metade da cidade -, era um membro da alta sociedade, com inúmeras conexões políticas que lhe permitiam perpetuar sua riqueza. Em suma, o sujeito tinha tudo o que qualquer pessoa gostaria de ter: “poder” (na versão dos Wings, “dinheiro”), “graça” e “estilo”.

A música descreve, na sequência, o glamour e as benesses de ser um privilegiado (e único) herdeiro: jornais publicando suas fotos em eventos, óperas, shows, além dos rumores sobre suas festas e orgias em seu iate, mas sem deixar de destacar seu lado carismático, bom moço, e suas altruístas doações à caridade – “oh, ele seguramente está feliz com tudo o que ele tem…”, suspira o narrador ao final da estrofe.

O contraponto da letra composta por Paul Simon é justamente o refrão da música, onde o narrador se apresenta como alguém que trabalha para Richard Cory, em uma de suas fábricas, e que, expressando sua ira e destilando sua inveja, amaldiçoa sua própria vida, blasfema sua atual situação de pobreza e, ainda, repetidas vezes, profetiza: “eu queria ser o Richard Cory!”.

Como explorado no artigo sobre a sucessão na BMW[4], a vida dos herdeiros, sobretudo de famílias beneficiárias de grandes fortunas ou titulares de empresas tradicionais, além de despertar muita curiosidade (e inveja), sujeita-se ao inquietante paradoxo entre gozar do patrimônio que lhe fora deixado, por direito, ou imbuir-se da responsabilidade de preservá-lo, perpetuá-lo em favor das próximas gerações e, mais ainda, incrementá-lo por meio de diversificação, segmentação, profissionalismo e muito planejamento.

No caso de Richard Cory, o poema se confunde com a história de vida do próprio autor, Robinson, que provavelmente teria sucesso financeiro seguindo a carreira de seu pai, mas ao escolher perseguir um objetivo mais pessoal – e, ao menos em sua avaliação, nobre – alcançou o reconhecimento por sua arte, com muita dedicação e uma pitada de sorte, provando que os caminhos de cada herdeiro serão sempre legítimos, desde que os papeis sejam previamente definidos, pois “o tratado nunca sai caro”.

Por isso, é na bonança que devemos pensar em sucessão e planejamento dos negócios familiares, definindo os papéis dos herdeiros de acordo com sua vocação, por meio dos instrumentos jurídicos adequados (protocolos familiares, acordos de acionistas ou quotistas, seguros e planos de previdência), bem como as estruturas e modelos de negócio ótimos do ponto de vista societário, tributário, patrimonial e sucessório, para cada grupo familiar.

Ah, antes que eu me esqueça, a música de Paul Simon, tal qual o poema de Edwin Arlington Robinson, tem um desfecho surpreendente. Nos mesmos jornais que antes publicavam suas aventuras e peripécias, certo dia, as manchetes assim liam: “Richard Cory foi para casa ontem à noite e matou-se com um tiro na cabeça”. É ou não é a versão rebuscada do ditado popular “quem vê as pingas que eu tomo, não vê os tombos que eu levo”?

[1] Fonte: Poetry Foundation, disponível em https://www.poetryfoundation.org/poets/edwin-arlington-robinson

[2] Fonte: Poetry Foundation, disponível em https://www.poetryfoundation.org/poems/44982/richard-cory

[3] Fonte: https://www.lyrics.com/lyric/5638867/Richard+Cory

[4] Fonte: artigo publicado em 22/07/2019.[:]

Ralph Melles Sticca