A virtude está no meio

[:pt]O filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), discípulo de Platão, é considerado um dos fundadores da Filosofia ocidental graças ao empirismo e à sistematização do conhecimento, que muito influenciaram as ciências modernas a partir do século XVI, em especial a física e a química[1]. Aristóteles também se dedicou ao estudo da lógica, mas seus escritos sobre ética e política ainda hoje têm grande impacto no pensamento moderno.

Em sua obra Ética a Nicômaco, o filósofo discorre – em uma análise bastante objetiva, claro – sobre ética e moralidade, apontando a virtude do homem como uma justa medida (ou justo meio) entre os extremos, os chamados vícios de excesso. Por exemplo, entre a covardia (falta) e a temeridade (excesso), a virtude se encerraria na coragem; entre a avareza (falta) e a prodigalidade (excesso), na liberalidade; e entre a apatia (falta) e a irascibilidade (excesso), na calma. O prudente, portanto, é aquele que em todas as situações é capaz de avaliar e julgar qual atitude melhor realizará sua finalidade ética – ser bom para si e para os outros[2].

Na sociedade atual, entretanto, em vez de virtude, o “meio” costuma ser interpretado como sinônimo de mediocridade. Se o cidadão não adota posições extremas em temas polêmicos como política e religião, é taxado como mediano, alguém que não tem opinião. Se o político não é de esquerda, nem de direita, é do Centrão – portanto, além de estar “em cima do muro”, provavelmente já foi cooptado por interesses nada republicanos. As campanhas publicitárias da moda são sempre na linha do “quem não arrisca, não petisca” ou do “no pain, no gain”, afinal se for para viver na média, para que viver? Moderação, mesmo, só nas propagandas de bebida alcoólica – talvez porque soassem desarrazoados o “pare já de beber” e o “beba até o coma alcoólico”.

Por sorte, em momentos de insanidade a ciência nunca nos deixa na mão: moda, mediana e média são medidas de tendência central utilizadas em estatística e a última, inclusive, é ponto de referência para a análise de normalidade de amostras e para calcular o desvio-padrão, outra medida da estatística que expressa o grau de dispersão de um conjunto de dados, por exemplo, retornos de determinada ação em relação a um ativo de menor risco ou índice de mercado, expressando sua volatilidade e, consequentemente, seu RISCO.

No I Encontro youShare de Gestão de Patrimônio de Famílias Empresárias[3] tivemos a oportunidade de destacar, no Painel II, a importância do compliance e da gestão de riscos nas empresas, independentemente de seu tamanho ou setor de atuação, justamente porque empreender e exercer atividades empresariais, sobretudo no Brasil, implicam uma série de eventos incertos, mas que se devidamente identificados e mensurados podem ser mitigados ou mesmo evitados, limitando, de um lado, a possibilidade de retornos expressivos (anormais), porém igualmente delimitando o nível de perdas em potencial.

Veja-se, por exemplo, a estratégia financeira de hedge, comumente utilizada por empresas ou empresários de setores sujeitos a riscos de variação cambial, preços, índices, produtividade ou mesmo intempéries: como produtor de café, eu posso estocar toda minha produção do ano no armazém da cooperativa e especular uma alta do preço da saca nos mercados interno e externo, ou ainda do câmbio; basta uma geada no Sul de Minas ou uma quebra de safra na Colômbia e eu me consagro! Caso as intempéries e demais eventos incertos não me favoreçam, contudo, sem o hedge eu certamente terei perdido uma excelente oportunidade de fixar minhas receitas, pagar meus custos e ainda gerar a margem necessária para investir na próxima safra.

Riscos, portanto, são inerentes aos negócios e podem até representar algo positivo – um indutor de inovação, criatividade e empirismo se analisarmos os cases de sucesso, picos da curva de volatilidade e, por tal, provavelmente outliers numa amostra mais ampla. Mas ignorá-los ou até mesmo adicioná-los à equação sem uma análise clara e precisa dos ganhos vis-à-vis o limite das perdas potenciais, pode soar tão business oriented quanto apostar todo o patrimônio da família no vermelho 21, num casino qualquer de Las Vegas.

Que tal aposentar a bola de cristal e assumir o verdadeiro papel de produtor de café, delegando aos instrumentos apropriados para gestão de risco de seu negócio e proteção do patrimônio, tais como estratégias de hedge, seguros, processos internos de compliance e governança corporativa, a busca pela justa medida – para a filosofia aristotélica, a verdadeira virtude?

[1] Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm

[2] Fonte: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/a-etica-em-aristoteles/

[3] Evento presencial realizado no dia 13/11/2019, na cidade de São Paulo, que contou com a participação de profissionais e empresas especializadas em gestão, auditoria e consultoria empresarial, seguros, proteção financeira e familiar.[:]

Ralph Melles Sticca