Cuide bem de seu negócio e declare as moedas em seus olhos

[:pt]Que a banda britânica The Beatles revolucionou não somente a música, mas também os costumes da década de 1960 mundo afora ninguém tem dúvida. Mas a genialidade de seus membros extrapola o campo do entretenimento, já que algumas de suas letras podem ser consideradas verdadeiros registros históricos.

Passado o furor da beatlemania do início dos anos 60, a banda deixou de apresentar-se ao vivo – muitas das vezes eles mal se ouviam em função da gritaria dos fãs – e empenhou-se em uma profícua fase de gravação em estúdios, de que resultaram álbuns antológicos como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, em 1967, para citar apenas um.

Com o estrelato, os membros da banda, de infâncias nada glamourosas nos subúrbios da cidade portuária de Liverpool, Inglaterra, naturalmente acumularam um patrimônio pessoal considerável, mas jovens, com pouco mais de 20 anos de idade, os músicos não sabiam como geri-lo ou tinham sequer ideia de quanto ganhavam pelo sucesso.

Coube ao contador Harry Pinsker assessorá-los na organização dos negócios da banda, inclusive criando estruturas societárias com o intuito de proteger seu patrimônio, sobretudo do “super imposto” criado na época pelo primeiro-ministro britânico Harold Wilson, de 95% sobre as maiores rendas do Reino Unido[1].

É nesse cenário que a música Taxman, composta pelo guitarrista George Harrison em 1966 e apresentada como a abertura do 7º e revolucionário álbum Revolver, expressa com maestria sua indignação de ver boa parte de sua renda e patrimônio sendo drenada ao governo trabalhista. Em uma tradução livre da língua inglesa, a música logo começa: “vou dizer-lhe como será, um para você, dezenove para mim, porque eu sou o fisco, eu sou o fisco“, e na sequência questiona: “se 5% parece pouco para você, agradeça por eu não levar tudo”.

A indignação vai além, sob a forma de hipérbole: “se você dirigir um carro, eu vou taxar a rua, se tentar sentar, eu vou taxar seu assento, se ficar com frio, eu tributo o calor, se fizer uma caminhada, eu vou taxar seus pés”. E entre menções ao primeiro-ministro (“Mr. Wilson”) e de seu antagonista do Partido Conservador, Edward Heath (“Mr. Heath”), primeiro-ministro anos depois, a música ironiza: “não me pergunte para que eu preciso dele, se não quiser pagar ainda mais”, e logo conclui “você está trabalhando para ninguém além de mim”, sensação que mais de 50 anos depois ainda aflige contribuintes ao redor do globo.

O resto do enredo é história, mas a lição que fica é que controladoria e governança são indispensáveis para o sucesso dos negócios, principalmente os familiares, já que em muitas situações o pioneirismo e o empreendedorismo de seu fundador traduzem-se em patrimônio e renda, mas que sem gestão podem acabar indo “pelo ralo” ou para o fisco, colocando em risco a perpetuidade e a segurança das próximas gerações. Daí a importância de contar com especialistas para o adequado planejamento e implementação das ações, sejam consultores, advogados ou bons contadores como Harry Pinsker.

Taxman não termina sem antes dar um conselho aos que morrerem: “declarem as moedas em seus olhos”, ironizando que nem o defunto se desincumbe de suas obrigações acessórias, em alusão à mitologia grega segundo a qual os mortos eram enterrados com o metal para pagar ao “barqueiro do inferno” a travessia ao mundo dos mortos. Melhor acatar, não?

[1] Fonte: The Telegraph, 23 de julho de 2017, disponível em: https://www.telegraph.co.uk/money/fame-fortune/beatles-accountant-50-years-scruffy-boys-didnt-want-pay-tax/.[:]

Ralph Melles Sticca