O formigueiro chamado Planeta Terra

[:pt]A crise sem precedentes na história mundial gerada pela pandemia da COVID-19 – hoje, dia 25 de março de 2019, já são contabilizados cerca de 440 mil casos e 20 mil mortes em todo o globo[1] – coloca-nos uma série de dúvidas e reflexões, potencializadas pelo isolamento de cerca de 1/3 da população mundial em suas próprias residências (quando as têm, evidentemente): nós estamos realmente preparados para os tempos de carestia?

O cenário atual me faz lembrar de uma fábula da pré-escola, “A Cigarra e a Formiga”, atribuída ao escritor da Grécia Antiga Esopo e adaptada para a era moderna pelo escritor francês Jean de La Fontaine[2], no século XVII, que como de conhecimento geral trata de uma cigarra que não parava de cantar durante o quente e iluminado verão, porquanto a formiga se esmerava no esforço e trabalho para prover a reserva de alimento para o longo e duro período de inverno que se aproximava; chegado o frio e, bingo!, lá estava a cigarra, que não se preocupara com a carestia, a pedir abrigo e comida à formiga.

Como todas as fábulas, adaptadas por diversos autores contemporâneos, inclusive brasileiros (Monteiro Lobato, por exemplo), a estória traz diversos finais (e morais): na versão supostamente original, a formiga pergunta à cigarra o que fizera durante o verão, e ao ouvir a resposta de que esta teria passado cantando, respondera “então, agora dance!”, numa moral um tanto quanto individualista e revanchista, ainda que realista. Em outras, mais amenas e lúdicas, a formiga compartilha de sua reserva, demonstrando solidariedade e compaixão com o próximo; e há ainda aquelas buriladas pelo “politicamente correto”, em que a cigarra representa o artista que inspira a formiga a trabalhar (?), e por tal, fora convidada a entrar e animar o formigueiro durante o período invernal.

Eu diria, “em condições normais de temperatura e pressão”, que a primeira moral é a mais acertada do ponto de vista didático, pois visa ensinar às crianças o conceito de poupança e provisionamento de recursos escassos, algo que as disciplinas de Economia, Administração e Contabilidade cuidarão de sistematizar lá no ensino superior àqueles que se interessarem em seguir suas carreiras nessas áreas, cada uma com sua própria abordagem – em grossas linhas, como prever, executar e controlar, respectivamente. É dizer, se as finanças estudam “o valor do dinheiro no tempo”, a formiga poupou nos tempos de bonança para emprestar – a juros, claro – à cigarra nos tempos de escassez.

Entretanto, na vivência de uma crise humanitária com riscos de colapso na saúde e de impactos incalculáveis na economia mundial, talvez a moral da solidariedade seja a mais apropriada para enfrentar o atual momento, em que vizinhos se ajudam com as rotinas mínimas de cuidado doméstico, países trocam estudos científicos, equipamentos e insumos médicos ociosos ou superavitários e governos ao redor do mundo anunciam planos de resgate à economia em cifras jamais vistas, superiores ao New Deal de 1933, como mecanismo de recuperação econômica após a Grande Depressão, e ao Plano Marshall, de socorro aos países europeus ao fim da Segunda Guerra Mundial – há pouco o Senado norte-americano aprovou o pacote econômico de US$ 2 trilhões (isso mesmo, R$ 10 trilhões, valor 1/3 superior ao Produto Interno Bruto brasileiro em 2019!)[3].

Eu tenho esperanças de que no momento em que você estiver lendo este artigo, tanto o isolamento social, quanto a própria da pandemia da COVID-19 tenham entrado para a história da humanidade contabilizando o menor número de mortes, sequelas e impactos econômicos possível, mas tenho certeza de que uma grande lição ficará não somente para nações e governos, como para empresas e pessoas ao redor do mundo: poupança e responsabilidade fiscal são fundamentais em tempos de paz e bonança, pois serão indispensáveis nos tempos de carestia.

No Brasil, muito se criticou a equipe econômica por promover ajustes e propor reformas estruturantes como a da Previdência Social, felizmente encampada pelo Congresso Nacional e aprovada ainda em 2019; ora, será que sem os ajustes o país teria condições de propor planos econômicos emergenciais, tais como o alongamento da dívida dos Estados e Municípios ou a liberação antecipada dos fundos de participação, dentre inúmeros outros em discussão ou pendentes de aprovação? E as empresas, principalmente as grandes, teriam condições de suportar meses com baixo faturamento e ainda contribuir com doações de álcool gel ou construção de hospitais se não tivessem o caixa turbinado por retenções de lucros e políticas de eficiência e cortes de custos – ou seja, governança?

Lógico que para a imensa maioria da população, poupar ou provisionar não é uma opção – o trabalho de hoje serve para pagar o sustento de amanhã, quando muito -, e são esses os que justamente mais devem inspirar cuidados do Governo, dada a situação social e econômica de extrema carência e fragilidade; porém, mesmo o mais Keynesiano dos economistas há de concordar que sem planejamento e uma política fiscal responsável, governo nenhum no mundo teria condições econômicas e financeiras de incentivar a demanda e socorrer a população mais carente em momentos de crise como o atual.

Por isso, não sabemos quando ou como vamos sair dessa situação, mas assim que houver clima novamente para cantarmos em alto e bom som tal qual a cigarra, que não nos esqueçamos dos tempos difíceis que passamos juntos nesse imenso formigueiro chamado de Planeta Terra e, por tal, que nos planejemos com ainda mais critério e ponderação para os próximos invernos que certamente virão.

[1] Fonte: John Hopkins University & Medicine Coronavirus Resource Center, disponível em https://coronavirus.jhu.edu/map.html, acessado em 25/03/2020.

[2] Fonte: EBC – Empresa Brasileira de Comunicação, disponível em http://www.ebc.com.br/infantil/ja-sou-grande/2013/06/voce-conhece-a-fabula-a-cigarra-e-a-formiga, acessado em 25/03/2020.

[3] Fonte: The New York Times, disponível em https://www.nytimes.com/2020/03/25/world/coronavirus-updates-maps-usa-world.html?action=click&module=Spotlight&pgtype=Homepage, acessado em 25/03/2020.[:]

Ralph Melles Sticca