Sua empresa está preparada para prosperar em tempos modernos (ou estranhos)?

[:pt]Porquanto escrevo mais este artigo, Alberto Fernández acaba de ser eleito Presidente da Argentina, tendo como vice a ex-presidente peronista Cristina Kirchner, que governou o país de 2007 a 2015[1], e Evo Morales se elegeu em 1º turno para seu 4º mandato como Presidente da Bolívia, em apuração cercada de suspeitas por parte da comunidade internacional[2].

No Chile, o Presidente Sebastián Piñera, de centro-direita, enfrenta a maior onda de protestos da história recente do país[3], o mesmo que se viu no início de outubro no Equador, com o governo de Lenín Moreno[4], tachado de direita em função de sua política liberal, em claro contraste com a de seu antecessor Rafael Correa.

No Uruguai, o segundo turno na eleição presidencial se dará em 24 de novembro entre o governista Daniel Martínez, da Frente Ampla, que mantém a esquerda no poder desde 2005, e o oposicionista Luis Lacalle Pou, de direita, filho do ex-presidente uruguaio Luis Alberto Lacalle, que governou o país de 1990 a 1995[5].

No Brasil, mesmo após 1 ano da eleição de Jair Bolsonaro para Presidente da República e inobstante os inquestionáveis avanços na área econômica – aprovação da Reforma da Previdência, redução da Taxa SELIC, inflação abaixo da meta, risco Brasil no menor nível desde 2013[6], mais concessões e privatizações no horizonte, possível (mas não provável) Reforma Tributária e o encaminhamento da indispensável reforma administrativa -, queimadas na Amazônia, manchas de óleo venezuelano no litoral do Nordeste, crise interna no Partido Social Liberal (PSL), debates quase sempre inócuos em torno de declarações em redes sociais e a iminente (nova) mudança de posicionamento do Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da possibilidade (não obrigatoriedade) de execução da pena após condenação criminal em 2ª instância, formam a tempestade perfeita para que a oposição siga entoando os jingles da campanha política de 2018 e atacando o neoliberalismo, porquanto mais de 12 milhões de brasileiros aptos ao trabalho seguem desempregados[7] (como se empregos pudessem ser gerados espontaneamente, sem necessidade de interveniência das empresas e empresários).

O que a sua empresa tem a ver com isso?

Tudo! A forte polarização política no Brasil e no mundo e o debate dos problemas e soluções da civilização contemporânea aos moldes de como realizado no Parlamento francês durante a Revolução Francesa (1789–1799) tem impactos relevantes para os negócios, fora e dentro das empresas e dos grupos empresariais familiares.

Do lado de fora, as tendências e os padrões de consumo e comportamento são ditados por famosos e anônimos em redes sociais, que não raramente posicionam-se contra as grandes corporações em suas contas no Instagram/Facebook[8] gerenciadas por seus smartphones Apple[9] e Samsung[10], protestam contra a fome mundial e em favor da preservação ambiental ao mesmo tempo em que criticam o uso de agrotóxicos na produção de alimentos em larga escala e desconhecem que cerca de 25% das áreas produtivas são preservadas pela iniciativa privada, quando não inflamam o debate político no conforto do lar em Miami ou Paris, por pura nostalgia de tempos passados em que recursos (e benefícios) eram aparentemente infindáveis. Fatos e dados não são mais absolutos: dependem do viés de quem os divulga e de quem os interpreta.

Do lado de dentro, para se amoldar ao novo padrão, empresas adotam o politicamente correto, e indicadores financeiros tais como EBITDA, NOPAT, TIR, geração de caixa e valor de mercado são relegados ao segundo plano, contanto que a propaganda da sustentabilidade e da diversidade esteja em dia e o ambiente de trabalho seja pet friendly. As novas gerações de herdeiros, para não se submeterem à rigidez da governança e ao árduo processo sucessório das empresas da família, miram a criação de suas startups e unicórnios, algumas delas com relativo sucesso, e outras nem tanto, cujos relatos do fracasso só são trazidos à luz quando servem de pano de fundo para dar emoção à narrativa da “volta por cima”.

No espectro político, porquanto o governo atual peleja sua entrada na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e celebra o acordo entre Mercosul e União Europeia após 20 anos de negociações sem sucesso, o Congresso Nacional persegue o retorno da tributação de 15% sobre os dividendos das empresas, extinta em 1996 pela Lei nº. 9.249/95, o aumento da alíquota do imposto estadual sobre heranças (ITCMD) – atualmente limitado a 8% -, e a regulamentação do imposto federal sobre grandes fortunas, previsto pelo artigo 153, inciso VII da Constituição Federal de 1988, confiante de que as empresas, empresários e suas fortunas permanecerão fiéis à nação brasileira ou serão raptados pela nova ordem de luta por mais direitos, em um mundo com cada vez menos deveres.

Como sua empresa se perpetuará diante desse cenário?

Com a mesma resiliência que a trouxe até aqui, investindo em inovação e em novas tecnologias, porém sem se render a modismos, mantendo o foco na governança e no planejamento, as melhores armas para combater as instabilidades e os anacronismos acima brevemente relatados. E ainda que as formas tenham evoluído, as estruturas e os acordos societários, os instrumentos contratuais e as diversas modalidades de fundos de investimento, instrumentos financeiros, seguros e planos de previdência privada seguem como peças relevantes no tabuleiro do planejamento empresarial e sucessório dos grupos familiares.

Assim, porquanto houver mulheres e homens de negócio dispostos a tomar riscos e a fomentar investimentos, inovação e qualificação profissional, geração de emprego e renda, e o desenvolvimento e crescimento econômicos – respeitando, claro, o ambiente legal e combatendo as desigualdades -, poderemos prescindir de um Estado keynesiano, seja de esquerda ou de direita, e não estaremos fadados a pautar nossas estratégias e ações em sermões adolescentes ou em fatos e dados compartilhados pelo grupo da família no WhatsApp.

Por isso, mais do que tempos modernos, tendo a concordar com o Ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que vivemos “tempos estranhos”, pedindo vênia, contudo, para discordar em relação ao diagnóstico, pelas razões acima expostas.

[1] Fonte: UOL, Internacional, disponível em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/10/27/alberto-fernandez-cristina-kirchner-vitoria-eleicoes-argentina.htm, acessado em 29/10/2019.

[2] Fonte: Folha de São Paulo, Mundo, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/10/em-fala-contraditoria-evo-diz-que-venceu-eleicao-mas-que-disputar-2o-turno-seria-lindo.shtml, acessado em 29/10/2019.

[3] Fonte: G1, Mundo, disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/28/protestos-no-chile-continuam-mesmo-com-troca-de-ministros-cidades-registram-confrontos.ghtml, acessado em 29/10/2019.

[4] Fonte: Folha de São Paulo, Mundo, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/10/equador-inicia-dialogo-com-indigenas-buscando-encerrar-protestos.shtml, acessado em 29/10/2019.

[5] Fonte: G1, Mundo, disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/28/eleicao-para-presidente-do-uruguai-tera-segundo-turno.ghtml, acessado em 29/10/2019.

[6] Fonte: Folha de São Paulo, Mercado, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/risco-pais-vai-ao-menor-patamar-desde-maio-de-2013.shtml, acessado em 30/10/2019.

[7] Fonte: G1, Economia, disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/09/27/desemprego-fica-em-118percent-em-agosto-diz-ibge.ghtml, acessado em 29/10/2019.

[8] Valor de mercado avaliado em US$ 83 bilhões em 2019 (vide https://www.consumidormoderno.com.br/2019/05/20/amazon-mais-valiosa-mundo/).

[9] Valor de mercado avaliado em US$ 154 bilhões em 2019 (vide https://www.consumidormoderno.com.br/2019/05/20/amazon-mais-valiosa-mundo/).

[10] Valor de mercado avaliado em US$ 91 bilhões em 2019 (vide https://www.consumidormoderno.com.br/2019/05/20/amazon-mais-valiosa-mundo/).[:]

Ralph Melles Sticca